sábado, 16 de agosto de 2014

Sexismo e Generalizações nas Línguas - Parte 1: Alemão

Hoje estou postando minha primeira parte sobre tema de análise que escolhi ligado à Identidade e Cultura.

Começarei expondo sobre alguns de meus não-entendimentos sobre o porquê de algumas coisas no alemão serem como são.

Para quem nunca teve contato com a língua, devo-lhe explicá-los primeiramente que o alemão tem três gêneros no singular: feminino, representado pelo artigo definido “die”, masculino, representado pelo “der” e o neutro, representado pelo “das”.

Palavras classificadas como de gênero neutro são bastante arbitrárias, a meu ver. As palavras vindas de línguas estrangeiras, mas bastante usadas no alemão, geralmente são classificadas neutras, como por exemplo: Restaurant, Sofa, Acessoires etc. O caso que não me parece fazer sentido porém é que “a menina” é “das Mädchen” em alemão (observação: em alemão, todos os substantivos são escritos com a inicial maiúscula, independe de sua localização na frase).

Para mim, não faz sentido algum. Menina é claramente feminino, a meu ver!

Mas para os alemães parece que não...

A primeira explicação que me propus sobre o caso foi a partir da regra das palavras no diminutivo: todas as palavras, quando faladas no diminutivo, recebem um sufixo “lein” ou “chen” (as vezes também uma trema numa das vogais da palavra) e são classificadas neutras. Por exemplo:
die Blume : das Blümchen (a flor : a florzinha)
der Kuss : das Küsschen (o beijo : o beijinho)

Pensei então que “das Mädchen” portanto se tratava de um substantivo no diminutivo e que as meninas era carinhosamente chamadas de “menininhas”.

Porém outro substantivo para “menina” é Mädel (que parece Mädchen fora do diminutivo). Mas o gênero de “Mädel” também é neutro! “Das Mädel” e não “die Mädel”, como eu esperava!

Perguntei a alguns alemães sobre o absurdo que representava pra mim classificar “menina” como gênero neutro.

Muitos não souberam explicar, outros disseram que crianças não precisam ter gênero definido. Ou seja, assim como “a criança” é “das Kind”, “o bebê” é “das Baby”, também “a menina é “das Mädel” ou “das Mädchen”.

Estranho porém é que “o menino”, “o garoto” não passa por tal “não necessidade em diferenciação estrutural para diferenciar um gênero de outro”.

“O menino” = der Jung

Enfim, acho bastante curiosa a forma em que o destaque ao feminino parece pouco interessante e, eu diria, até um tanto desprezado na língua.

O plural da língua, a propósito, não é separado por gênero e representado também pelo artigo “die”. Tal fato leva a pensar-se que o plural, a generalização de maiorias, se assemelha mais ao feminino e isso, em muitas línguas parece interessante (creio que aos lusófonos principalmente, que geralmente representam os plurais generalizando para o masculino, como: os pais, os irmãos etc).

Eu porém diria que o caso se assemelha mais a um descaso em diferenciar o gênero feminino que uma “vantagem” em se generalizar plurais mais próximos ao feminino. Isso porquê, além de algumas outras observações, o alemão possui quatro casos de declinação: nominativo, acusativo, dativo e genitivo. E dentro de cada um deles, a diferenciação do gênero masculino dos demais é bem mais clara (apesar de as vezes se igualar ao neutro) e marcada. No acusativo, caso usado para referir-se ao objeto da frase, ou seja, ao receptor da ação do verbo, por exemplo, só há diferença na estrutura formada para os substantivos e pronomes masculinos!

Enfim, pretendo em breve perguntar novamente a alguns alemães que conheço e postarei aqui qualquer atualização sobre o tema.

Por enquanto, deixo aqui minha pergunta aos que leram: o que vocês acham sobre o tema? Comentem no post, por favor, caso já tenham tido algum contato com a língua e já ficaram espantados, como eu.


Caso nunca tenham tido contato com o alemão, o que vocês pensam sobre sexismos nas línguas? Se possível, citem algum exemplo, pode ser também relacionado à língua que vocês dominam ou qualquer curiosidade que vcs conheçam sobre algum idioma.

2 comentários:

  1. Acredito que a língua faz parte da cultura de m povo, e justamente por isso expressa aquilo que o povo pensa e, no caso do alemão, fica claro que a mulher não recebia muita importância o que aparece na língua. Obviamente que hoje pode ser que mulher tenha mais valor e importância na sociedade alemão, porém como esse idioma é um dos mais antigos, ele reflete qual era o valor da mulher muitos séculos atrás dentro dessa sociedade.

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  2. Eu sempre tive a impressão que o alemão era uma língua menos machista justamente por causa dos pronomes femininos terem mais usos, dentre eles o "Sie" formal, que eu achei que era até uma certa forma de respeito. Não tinha pensado que justamente essa não diferenciação podia ser reflexo de um certo machismo, mas faz bastante sentido. É um raciocínio inverso do que eu tinha.

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