Essa semana, conversei com um amigo que, além de fluente em
cinco línguas (português, inglês, espanhol, francês e alemão) e hoje estudante
de sueco, já se aventurou em algumas outras línguas, lendo sobre ou descobrindo
algo com alguma das cerce de 40 pessoas que ele voluntariamente hospedou em sua
casa dentro de apenas dois anos.
Perguntei a ele sobre sua visão a respeito do sexismo nas
línguas e qual o impacto disso que ele percebia diante da sociedade. Ele
respondeu que para ele há uma grande influencia das línguas com menos diferença
entre gêneros na diminuição da separação dos gêneros dos indivíduos dentro de
uma sociedade. O Português, por exemplo, que generaliza plurais em muitos casos
para o masculino (como: os pais, os amigos etc) - ainda que seja possível
separar de gêneros no plural (eles e elas), mostra uma posição um tanto apagada
das mulheres.
No Sueco, por exemplo, não há gênero feminino e masculino,
mas “comum”, representado pelo artigo “en”
e o “neutro”, representado pelo “ett”. Desses dois, o gênero comum abrange
cerca de 80% das palavras na língua. Essa categoria poderia ser definida como
se houvesse apenas um gênero para tratar masculino e feminino, por exemplo, no
português. A escolha do gênero de uma palavra porém é bastante arbitrária: não
há uma separação de categorias de substantivos (objetos, animais etc) que
determina seu gênero na língua. E sobre o país: a Suécia é o segundo país com
maior igualdade entre sexos. As mulheres não só tem a maioria de seus direitos
iguais aos homens, como também deveres: lá as mulheres e homens tem direito a
aposentadoria ambos com 65 de idade.
Outra curiosidade compartilhada é que o número de registros
de estupros na Suécia é o maior da Europa. Tal fato, apesar de nos induzir ao
pensamento de que se não há registro é porque não acontece nos outros países, mostra uma ideia bem distinta da realidade que
ele imagina. Devido à posição frágil em que a mulher se encontra ao se admitir
como vítima de estupro, principalmente pelas pessoas com as quais ela convive,
muitas não denunciam o abuso e esse seja talvez o motivo de que há poucos
registros na Europa. Seja por medo de rejeição ou das consequências às vítimas
(medo de pôr sua segurança em risco), é importante ressaltar que as mulheres na
Suécia são as que menos se encaixariam nessas classificações de motivos. Ele vê
as mulheres suecas como bastante corajosas e pouco intimidadas pela sociedade.
Outro caso interessante é a Finlândia, cujo parlamento é
composto quase 50% por mulheres e que tem na língua uma única palavra que
representa “ele” e “ela”.
Também ele teve contato com algumas finlandesas e disse perceber que
elas agem como pessoas valorizadas, em comparação às brasileiras que ele
conhece, por exemplo. Ele se explica melhor dizendo que sua impressão é a de
que elas parecem se sentir muito mais bem-vistas, mais a vontade diante da
sociedade, enquanto as brasileiras ainda parecem bastante reprimidas e sofrerem
a consideração do sexo feminino por muitos como sexo frágil e menos favorecido.
Outro caso: o japonês, que tem, por exemplo, formas do pronome “eu”
diferentes de acordo com o sexo: o eu masculino é representado pela palavra
“boku”, enquanto o feminino, pelo “watashi”. Há também formas diferentes de
tratamento para consigo numa conversa com uma pessoa mais nova ou mais velha
que você e também uma forma de dizer “eu” extremamente polida. O mais curioso é
que em livros de japonês para estrangeiros, a única forma do “eu” ensinada é o
“watashi”. Culturamente sabemos que as mulheres no Japão devem seguir muitos
estereótipos, como por exemplo, ser baixa ou a época em que elas eram obrigadas
a usar sapatos que deformavam seus pés pois pés pequenos na cultura japonesa
indicava fertilidade. “Watashi”simboliza para ele um tratamento no Japão onde a
pessoa se coloca numa posição menos favorecida, não só as mulheres, mas também
os estrangeiros que, empiricamente ele afirma serem vistos com olhos não tão
bons no paí.
Por fim, ele me conta que a língua para ele exerce extrema
influência na identidade de uma sociedade e tem um papel forte na forma de agir
dos indivíduos e ressalta a importância em aprender mais línguas: nosso
pensamento se torna muito mais flexível, muito mais compreensivo com o próximo
quando se tem conhecimento sobre várias formas de dizer uma mesma coisa. Ou
seja, de alcançar significados próximos ainda que representados por palavras e
estruturas gramaticais tão diferentes.
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