sábado, 23 de agosto de 2014

Conversa-Entrevista: Línguas e Culturas

Essa semana, conversei com um amigo que, além de fluente em cinco línguas (português, inglês, espanhol, francês e alemão) e hoje estudante de sueco, já se aventurou em algumas outras línguas, lendo sobre ou descobrindo algo com alguma das cerce de 40 pessoas que ele voluntariamente hospedou em sua casa dentro de apenas dois anos.

Perguntei a ele sobre sua visão a respeito do sexismo nas línguas e qual o impacto disso que ele percebia diante da sociedade. Ele respondeu que para ele há uma grande influencia das línguas com menos diferença entre gêneros na diminuição da separação dos gêneros dos indivíduos dentro de uma sociedade. O Português, por exemplo, que generaliza plurais em muitos casos para o masculino (como: os pais, os amigos etc) - ainda que seja possível separar de gêneros no plural (eles e elas), mostra uma posição um tanto apagada das mulheres.

No Sueco, por exemplo, não há gênero feminino e masculino, mas “comum”, representado pelo artigo “en”  e o “neutro”, representado pelo “ett”. Desses dois, o gênero comum abrange cerca de 80% das palavras na língua. Essa categoria poderia ser definida como se houvesse apenas um gênero para tratar masculino e feminino, por exemplo, no português. A escolha do gênero de uma palavra porém é bastante arbitrária: não há uma separação de categorias de substantivos (objetos, animais etc) que determina seu gênero na língua. E sobre o país: a Suécia é o segundo país com maior igualdade entre sexos. As mulheres não só tem a maioria de seus direitos iguais aos homens, como também deveres: lá as mulheres e homens tem direito a aposentadoria ambos com 65 de idade.

Outra curiosidade compartilhada é que o número de registros de estupros na Suécia é o maior da Europa. Tal fato, apesar de nos induzir ao pensamento de que se não há registro é porque não acontece nos outros países,  mostra uma ideia bem distinta da realidade que ele imagina. Devido à posição frágil em que a mulher se encontra ao se admitir como vítima de estupro, principalmente pelas pessoas com as quais ela convive, muitas não denunciam o abuso e esse seja talvez o motivo de que há poucos registros na Europa. Seja por medo de rejeição ou das consequências às vítimas (medo de pôr sua segurança em risco), é importante ressaltar que as mulheres na Suécia são as que menos se encaixariam nessas classificações de motivos. Ele vê as mulheres suecas como bastante corajosas e pouco intimidadas pela sociedade.

Outro caso interessante é a Finlândia, cujo parlamento é composto quase 50% por mulheres e que tem na língua uma única palavra que representa “ele” e “ela”.
Também ele teve contato com algumas finlandesas e disse perceber que elas agem como pessoas valorizadas, em comparação às brasileiras que ele conhece, por exemplo. Ele se explica melhor dizendo que sua impressão é a de que elas parecem se sentir muito mais bem-vistas, mais a vontade diante da sociedade, enquanto as brasileiras ainda parecem bastante reprimidas e sofrerem a consideração do sexo feminino por muitos como sexo frágil e menos favorecido.

Outro caso: o japonês, que tem, por exemplo, formas do pronome “eu” diferentes de acordo com o sexo: o eu masculino é representado pela palavra “boku”, enquanto o feminino, pelo “watashi”. Há também formas diferentes de tratamento para consigo numa conversa com uma pessoa mais nova ou mais velha que você e também uma forma de dizer “eu” extremamente polida. O mais curioso é que em livros de japonês para estrangeiros, a única forma do “eu” ensinada é o “watashi”. Culturamente sabemos que as mulheres no Japão devem seguir muitos estereótipos, como por exemplo, ser baixa ou a época em que elas eram obrigadas a usar sapatos que deformavam seus pés pois pés pequenos na cultura japonesa indicava fertilidade. “Watashi”simboliza para ele um tratamento no Japão onde a pessoa se coloca numa posição menos favorecida, não só as mulheres, mas também os estrangeiros que, empiricamente ele afirma serem vistos com olhos não tão bons no paí.


Por fim, ele me conta que a língua para ele exerce extrema influência na identidade de uma sociedade e tem um papel forte na forma de agir dos indivíduos e ressalta a importância em aprender mais línguas: nosso pensamento se torna muito mais flexível, muito mais compreensivo com o próximo quando se tem conhecimento sobre várias formas de dizer uma mesma coisa. Ou seja, de alcançar significados próximos ainda que representados por palavras e estruturas gramaticais tão diferentes. 

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